A visualização
do filme Crash não deixa (deve
deixar) ninguém indiferente. Na 6ª sexta-feira passada, voltei a ver este filme
inquietante que nos faz colidir de frente com a natureza humana. O racismo, a
xenofobia, o tráfico humano, o abuso sexual, entre tantos outros vícios que
caracterizam essa natureza, levam-me a ponderar sobre a inevitabilidade deste
tipo de comportamento. O ser humano não lida bem com a diferença e milénios de
socialização não foram suficientes para esclarecer a mente humana.
Sobre isso,
questionei a organizadora deste visionamento, em ambiente académico, que me
tranquilizou e, de certa forma, renovou a minha esperança na humanidade. Perguntei-lhe
se a humanidade estaria condenada ao racismo, ao que me respondeu que devemos
manter viva a utopia e acreditarmos que a mudança de atitudes é possível, que a
educação pode e deve fomentar a tolerância.
O ser humano é
um “animal político” que se molda lentamente, uma construção frágil que tende
para o desmoronamento, e as conquistas da humanidade são um processo inacabado,
a exigir constantes cuidados e atenção. A evolução de mentalidades é mais lenta
que o progresso tecnológico e não devemos tomar como certa a sua
irreversibilidade como, assim nos dizem, é a natureza deste último. Gerações de
visionários (Cristo, Gandhi, King, etc.) deram a sua vida para impulsionar esta
construção e é responsabilidade de todos, especialmente dos que desenvolvem atividades
na área da educação, garantir que esse legado não seja perdido/esquecido. Tenho
plena consciência do quão difícil é este trabalho inglório, quando um único
momento ou ato irrefletido pode deitar a perder o trabalho de uma vida. Olhar
para trás e admirar o esforço de tantos, na perseguição dos seus sonhos,
leva-me a respeitar as conquistas que damos por adquiridas e faz-me acreditar
que para lá do horizonte existem novas possibilidades.
Bem, “nem tudo está perdido” diria um
ilustre professor, mas creio que as gerações atuais apenas poderão/deverão
continuar a indignar-se com estes comportamentos e a sonhar com melhores dias,
uma vez que somos contemporâneos de retrocessos civilizacionais que levarão
tempo a reverter. As sociedades (mais) justas, tolerantes e fraternas serão apenas
uma realidade (assim espero) para as gerações vindouras.
Sobre o Crash gostaria ainda de acrescentar que
adoro filmes com histórias paralelas que se cruzam. Pulp Fiction foi inovador nesse sentido, mas no recente Cloud Atlas é aberta toda uma nova
dimensão de interdependências, entre o passado/presente e o futuro mas também
no sentido inverso.

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