quarta-feira, 27 de março de 2013

CRASH

 

A visualização do filme Crash não deixa (deve deixar) ninguém indiferente. Na 6ª sexta-feira passada, voltei a ver este filme inquietante que nos faz colidir de frente com a natureza humana. O racismo, a xenofobia, o tráfico humano, o abuso sexual, entre tantos outros vícios que caracterizam essa natureza, levam-me a ponderar sobre a inevitabilidade deste tipo de comportamento. O ser humano não lida bem com a diferença e milénios de socialização não foram suficientes para esclarecer a mente humana.

Sobre isso, questionei a organizadora deste visionamento, em ambiente académico, que me tranquilizou e, de certa forma, renovou a minha esperança na humanidade. Perguntei-lhe se a humanidade estaria condenada ao racismo, ao que me respondeu que devemos manter viva a utopia e acreditarmos que a mudança de atitudes é possível, que a educação pode e deve fomentar a tolerância.

O ser humano é um “animal político” que se molda lentamente, uma construção frágil que tende para o desmoronamento, e as conquistas da humanidade são um processo inacabado, a exigir constantes cuidados e atenção. A evolução de mentalidades é mais lenta que o progresso tecnológico e não devemos tomar como certa a sua irreversibilidade como, assim nos dizem, é a natureza deste último. Gerações de visionários (Cristo, Gandhi, King, etc.) deram a sua vida para impulsionar esta construção e é responsabilidade de todos, especialmente dos que desenvolvem atividades na área da educação, garantir que esse legado não seja perdido/esquecido. Tenho plena consciência do quão difícil é este trabalho inglório, quando um único momento ou ato irrefletido pode deitar a perder o trabalho de uma vida. Olhar para trás e admirar o esforço de tantos, na perseguição dos seus sonhos, leva-me a respeitar as conquistas que damos por adquiridas e faz-me acreditar que para lá do horizonte existem novas possibilidades.

Bem, “nem tudo está perdidodiria um ilustre professor, mas creio que as gerações atuais apenas poderão/deverão continuar a indignar-se com estes comportamentos e a sonhar com melhores dias, uma vez que somos contemporâneos de retrocessos civilizacionais que levarão tempo a reverter. As sociedades (mais) justas, tolerantes e fraternas serão apenas uma realidade (assim espero) para as gerações vindouras.

Sobre o Crash gostaria ainda de acrescentar que adoro filmes com histórias paralelas que se cruzam. Pulp Fiction foi inovador nesse sentido, mas no recente Cloud Atlas é aberta toda uma nova dimensão de interdependências, entre o passado/presente e o futuro mas também no sentido inverso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário